quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

PÁSSARO NEGRO






PÁSSARO NEGRO
(Vera Lúcia Cavalcanti)
  


Gosto de brincar com as palavras
De fazer rimas e trocadilhos
Aproveitar passagens e criar situações
Dentro desta minha diretriz
Resolvi falar do amigo CANCÃO


Manoel da Silva Mariano é este o seu nome
Jovem respeitador, trabalhador e sisudo
Aos domingos não perdia a missa
Vestido em linho branco bem engomado
E sapatos pretos muito bem engraxados


Foi assim, ainda criança que via este rapaz
Filho de pais pobres, simples e honesto
Certamente cheio de sonhos e ilusão
Desfilava com sua namorada,
Sempre dedicado,
Vaidoso, pomposo e enfatiotado




De repente, não se sabe como nem por que
O jovem perdeu o juízo e se transformou
Virou falante, profeta e orador
Perdeu a saúde, a vaidade e a emoção
Talvez pela sua cor,
O apelidaram de CANCÃO




Dizem que esta transformação
Teve culpa uma certa donzela
Que perdera a sua pureza
E a honra por ele, não foi reparada
"A macumba" foi a vingança
Por ela encontrada


Se é especulação ou fato, eu não sei dizer
Até porque não dou crédito ao assunto
Só sei dizer que o seu juízo não recuperou
Sempre atento aos movimentos da cidade
Para uma nova tese defender e compor
Incorporou intelectual e defensor
Dos bons costumes e da ordem
A proclamar sua oratória pelas ruas
Muitas palavras sem sentido, outras não
Assim termino a prosa do inofensivo CANCÃO

VILA DE SÃO JOSÉ DO RIO GRANDE

22 DE FEVEREIRO DE 1762


      Há exatos 253 anos atrás – com a saída da Aldeia dos Moppebus dos religiosos frades Capuchinhos - o rei de Portugal transformou oficialmente as aldeias do Ceará e do Rio Grande em VILAS com a denominação de “Terras do Reino.” Para essa tarefa, ele chamou o Juiz de Fora de Olinda, MIGUEL CARLOS CALDEIRA DE PINA CASTELO.
      Depois de todas as providências tomadas, como a demarcação e distribuição das terras entre os brancos e índios, criação do “Pelourinho” e do Conselho de Vereança (origem da Câmara de Vereadores) e uma denominação, entre outras providências, estava criada a nova Vila: VILA DE SÃO JOSÉ DO RIO GRANDE.
      Estava aberto o caminho para o surgimento da futura cidade de São José de Mipibu, que desde a sua criação até a reforma de 1829, a Vila teve 66 eleições para preenchimento dos cargos existentes e progredia aceleradamente para o seu destino maior que era tornar-se a cidade Mais promissora da Província!
      Hoje vemos em que se transformou a pequena Vila de São José do Rio Grande:
·      Descuidada e abandonada pelos poderes constituídos;
·      Inchada, por falta de infraestrutura;
·      Mal educada, doente e insegura;
  E o povo – ingênuo como os provincianos daquela época – elegendo mandatários descomprometidos com a coisa pública!
Livro de referência:
“NO RASTRO DOS MOPPEBUS”
(Inédito)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

LENDA DO RIO MIPIBU




MOEMA E JANDUY
A LENDA DO RIO MIPIBU


      Nos meus devaneios, ao buscar o passado da minha cidade, sonhei que me encontrava na tribo dos Moppebus. Perfeitamente adaptada àquela paisagem exuberante da Mata da Bica, e olhando o cristalino rio que circundava a mata, deparei-me com um grupo de Moppebus que vinha de suas caçadas rotineiras. Sem medo me aproximei e mesmo surpresos, eles me receberam bem. Para minha alegria conheciam a minha língua, o que facilitou travarmos uma conversa muito amistosa.
Falamos de tudo: do céu azul, da grande mata e seus animais, da caça e da pesca nas águas transparentes do Rio Moppebu, do Sol e da Lua, de suas crenças e de sua cultura. Então, ao perguntar a origem daquele Rio caudaloso e limpo, um deles se destacou do grupo e me contou a história do seu aparecimento. Então ele me disse: A tribo dos Moppebus se destaca entre outras cinco ou seis tribos das terras litorâneas do Rio Grande do Norte, pois é muito adiantada. Aqui viveu uma índia chamada MOEMA – filha de JERERA o grande cacique da Tribo Moppebu com uma de suas esposas chamada DIACUY. A nossa tribo sempre habitou essa a área da mata fechada – (o que hoje é a MATA DA BICA) - onde existem grandes animais para a nossa caça e é circundada pelos rios Trairi, Araraí e lagoas como a Lagoa do Puxy, Lagoa do Gravatá e outras. MOEMA – que nasceu numa bela noite enluarada – tinha uma beleza singular, pois segundo a nossa crença – nós adoramos o Sol e a Lua - ela herdou da Lua seus belos dotes físicos e sua  branca pureza. Mas apesar dessa beleza toda que a todos encantavam, MOEMA era triste, pois sua mãe morrera por ocasião do parto ao lhe dar a vida!
Todos nós nos comovíamos com a dor da pequena MOEMA e tudo fazíamos para amenizar o seu sofrimento. Seu pai JERERA sempre a levava para banhar-se nas águas de um pequeno Lago que existia perto dessa mata onde fica a aldeia, e sempre que isso acontecia MOEMA ao lembrar-se de sua mãe, chorava muito e seu pranto caía nesse Lago.  Todos acreditavam que sua amada mãe recebia e guardava as suas lágrimas como que tentando minimizar a dor que ela sentia pela sua falta.
       Com o tempo ela foi crescendo cercada pelo carinho de todos nós que fizemos tudo para que ela sentisse um pouco de felicidade. Mas eram quase inúteis os nossos esforços, pois ela continuava triste. Foi então que um guerreiro companheiro nosso chamado JANDUY – moço bonito, de físico perfeito, muito valente, grande guerreiro e de bom coração, ao entrar na mata para suas costumeiras caçadas – como a que fizemos hoje - passou perto desse lago e viu MOEMA chorando. Já conhecendo a sua história e (sentindo dó da situação), criou coragem e aproximou-se dela travando assim o primeiro diálogo entre eles. O tempo passou e ele dedicou-se a ela dando-lhe atenção e carinho tentando minorar a sua tristeza. Essa amizade foi ficando mais forte e Moema sentia-se mais alegre e todos nós já víamos uma ponta de felicidade no seu semblante.  Foi um pequenino passo para que surgisse um forte sentimento entre eles, pois já haviam se acostumado a ficar juntos todos os dias. Esse amor era consentido por seu pai que era o cacique da tribo, pelo Xamã, o grande curandeiro que os protegia e aceito por todos nós que via no rosto dela o semblante da felicidade e alegria por ser tão amada por JANDUY.
O guerreiro JANDUY apaixonado e querendo demonstrar o seu amor, todos os dias ia buscá-la na Oca, e com ela percorriam a grande mata, colhiam frutas, banhavam-se nas belas praias de Camurupim e Tabatinga e pescavam na Lagoa do Puxy (Bom Fim) no Rio Trairi entre outros.  O amor de Janduy por Moema era tão grande que já não viviam um sem o outro.
Ocorre que certo dia ao ir buscá-la para o costumeiro passeio foi tomado por uma grande dor ao ver a sua amada, já sem vida, dentro da rede. Ninguém soube explicar a causa de sua morte. Mesmo já sem vida, a bela MOEMA estava serena como a demonstrar a felicidade que vivera ao lado do seu amado. Louco de desespero chamou-a, mas sem resposta viu que todos nós – cientes do que havia acontecido – nos encontrava - mos  dentro da oca já em preparativos para a solenidade do funeral da tão amada índia. Com o coração dilacerado por tanta dor e tristeza pela perda do seu grande amor e parecendo anestesiado, Janduy acompanhou o cortejo fúnebre num pranto sem fim. Durante o sepultamento – que foi realizado perto do antigo lago, embaixo de uma frondosa árvore - o seu coração gritava pela volta da amada, e dos seus olhos brotaram um pranto tão dolorido e abundante que seu choro transformou o pequeno lago num grande rio afogando-o e levando-o para junto de sua amada, fazendo surgir da terra vários “olheiros,” que nós chamamos de “MBI-PIBU” palavra da nossa língua (Tupi). Eu então pensei: Essa palavra deu origem a uma das teorias sobre o nome MOPPEBU que significa “EMERGIR SUBTAMENTE.” Então deduzi que das entranhas da terra, a dor do grande guerreiro JANDUY que morreu por amor a sua amada MOEMA é a origem lendária do RIO MIPIBU.
Dessa maneira, pude sentir “de perto” - através dos meus sonhos - a lição de amor de dois jovens, cujo fruto é o Rio Mipibu de onde vem o nome da cidade em que hoje vivemos. SÃO JOSÉ DO MIPIBU!
                                                       Maria Lúcia Amaral

                  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

VOU-ME EMBORA PRO PASSADO


Vou-me embora pro passado
No passado é outra história
Outra civilização.
Tem Alvarenga e Ranchinho
Tem Jararaca e Ratinho 
aprontando gozação
Tem "assustado" à Vermuth
Ao som de Valdir Calmon
Tem Long play da Mocambo 
Mas Rosemblit é o bom
Tem Albertinho Limonta
Tem também Mamãe Dolores
Marcelino Pão e Vinho
Tem Bat Masterson tem Lesse
Túnel do Tempo tem Zorro
Não se vê tantos horrores
Lá no passado tem Corso
Lança Perfume Rodouro
Geladeira Kelvinator 
ABC a Voz de Ouro
Se ouve Carlos Galhardo
Em Audições Musicais
Piano ao cair da tarde 
Cancioneiro de Sucesso
Tem também Repórter Esso 
Com notícias atuais
Tem Petisqueiro e Bufê
Junto à mesa de jantar
Tem Bisquit e Bibelô 
Tem louça de toda cor
Bule de Ágata, Alguidar
Se brinca de Cabra Cega 
De Drama de Garrafão 
Cámoniboi Balieira 
De Rolimã na ladeira
De Rasteira e de Pinhão

Vou-me embora pro passado
Que o passado é bom demais
Lá  tem meninas "quebrando"
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a Pó de Arroz
Da Cachemère Bouquet
Coty ou Royal Briar
Colocam rouge e laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Rubstáin
Saem de saia plissada
Ou de vestido tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho
Lá no cinema Rex
Se vê broto a namorar
De mãos dada com o guri
Com vestido de Organdi
Com gola de Tafetá
Os homens lá do passado
Só andam tudo tinindo
De linho diagonl
Camisas Lunfor a tal
Sapato Clarck de cromo
Ou Passo Double esportivo
Ou Fox de bico fino
De camisas Volta ao Mundo
Caneta Shafers no bolso
Ou Parker 51
Só cheirando a Água Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifeboy e Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo
Citinlante como o sol

Vou-me embora pro passado
Lá tem tudo que há de bom
Os mais velhos ainda usam
Sapatos branco e marrom
E chapéu de aba larga
Ramenzone ou Cury Luxo
Ouvindo "Besame Mucho"
Solfejando a meio tom

Vou-me embora pro passado,
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas "daqui ó"
Roy Rogers Buc Jones Dóris Day

Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Porque lá é outro astral
Lá tem carros vemaguet
Jeep willes maverick
Tem gordine tem buick
Tem candango e tem rural
Lá dançarei twist
Hully gully, iê iê iê
Lá é uma brasa mora
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um gênio
Vestirei calças de nycron
Faroeste ou durabem
Tecidos sanforizados
Tergal percal e balon
Verei lances de anágua
Combinação califon
Escutarei Al Di Lá
Dominique nique niqu,
Me fartarei de grapete
Na farra dos piqueniques
 Itálico
Vou-me embora pro passado
No passado tem Jerônimo
Aquele herói do Sertão
Tem Coronel Ludugero
Com Otrope em discussão
Tem passeio de Lambreta
De Vespa, de Berlineta
Marinete e Lotação
Quando toca Pata Pata
Cantam a versão musical
" Tá com a pulga na cueca"
E dançam a música sapeca
"Ô Papa Hum Mau Mau"
Tem a turma prafrentex
Cantando Banho de Lua
Tem bundeira e piniqueira
Dando sopa pela rua


Vou-me embora pro passado!!!
VEM COMIGO???













terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

01 - A DEMOLIÇÃO DA INTENDÊNCIA

            Quando a Província de São José de Mipibu teve à frente do poder, o jovem ÁUREO TAVARES DE ARAÚJO – moço inteligente e dinâmico – a cidade teve uma das melhores administrações em todo período republicano; se muito não fez, foi o que mais fez, ao transformar radicalmente o centro urbano da cidade, com a demolição da CASA DO MERCADO E DA CADEIA PÚBLICA em meados de 1939. Vale ressaltar que isso gerou uma grande polêmica na época, quanto à conveniência ou não de se por abaixo o velho prédio, que durante tantos anos abrigara o Legislativo do Município; uma solução intermediária teria sido mais adequada aos problemas criados com esse intento do jovem Prefeito.

      O impasse criado com a demolição das centenárias CASAS DO MERCADO E DA CADEIA PÚBLICA gerou insatisfação de muitos que viam que, se por um lado remodelava-se para modernizar a cidade, por outro, destruía-se uma verdadeira relíquia histórica.   Era   um  quadro de desumanidade deixar a Cadeia naquele local, quando criaturas infelizes estavam aprisionadas por trás de enormes grades, tendo diante de si – a repetir-se diariamente – o espetáculo das feiras livres, numa demonstração marcante do significado  de liberdade; os presos deveriam sentir duplamente as suas penas. Outra questão levantada deixava claro que a Cadeia poderia ser mudada de lugar sem precisar derrubar o prédio. Depois de muita agitação, polêmica e insatisfação popular esperava-se que o Prefeito se sensibilizasse diante da crise e revisse o seu intento, mas qual a decepção do povo pois nenhum argumento demoveu o mandatário do poder. As picaretas começaram a funcionar e os volumosos blocos de pedra se desprenderam das seculares paredes; do madeiramento amontoado na Praça fronteira, grandes ratos fugiam apavorados pela Cidade. Poucos dias depois, restava apenas o terreno onde seria erguido o novo mercado.

            Agora, tudo era uma festa: Betoneiras e outras máquinas de construção eram vistas – pela primeira vez – em São José de Mipibu, ante os olhos entusiasmados dos que eram a favor “da reforma” urbana. A nova Cadeia foi construída longe do centro da cidade – próxima ao cemitério – a Prefeitura, que funcionava há muito tempo em um prédio pequeno e acanhado, ganhou novas e amplas instalações. Mas não era apenas o setor público o único responsável por essa revolução na fisionomia da Cidade; particulares também lhe seguiam o exemplo, e assim a cidade se remodelava e o seu comércio crescia com o aparecimento de novas lojas em alguns dos novos prédios construídos. O sonho de modernizar e embelezar o centro urbano de São José de Mipibu custou muito caro para aqueles defensores do patrimônio histórico e cultural do Município.


Livro de referência:
"NO RASTRO DOS MOPPEBUS"